Publicações

Capítulo de livro

  • Oliveira, Giovana B. C., Penteado, Maria Isabel G. e Auko, Ticiane R., “Recriando Novas Narrativas sobre Violência Familiar”, in: Oliveira, Sonia M. e Gonçalves, Tereza E. (orgs.), Famílias e Instituições – Enlaces Possíveis, Taubaté: Cabral Editora, 2006, p. 133-143. 

ARTIGOS

Recriando Vínculos

Artigo publicado no jornal CORREIO POPULAR de Campinas/SP, em 3 de setembro de 2008, pag. A3

O Projeto ReCriando do SOS Ação Mulher e Família de Campinas oferece um espaço de convivência lúdica para crianças e seus familiares, buscando caminhos para atenuar a violência intrafamiliar e atuar em sua prevenção.
Ao ingressar no projeto, a criança encontra um espaço de acolhimento onde, através de brinquedos e jogos, tem acesso a um mundo de fantasias. É aí que acontece a aceitação mútua criança-profissional, muito importante para que ela se sinta segura, acolhida e inicie o processo de adaptação às pessoas e ao espaço lúdico, desenvolvendo vínculos. Este é o principal instrumento de trabalho, já que é através da relação de confiança que a criança se sente à vontade para compartilhar sua realidade. A aliança sócio-educativa-terapêutica criada é centrada no diálogo e no desenvolvimento da auto-estima e autonomia.
Baseado no modelo da psicoterapia breve, o projeto prevê um período de tempo pré-determinado, média de 12 encontros, com foco na angustia atual e no desenvolvimento dos recursos e competências dos usuários. É um trabalho de curta duração, mas com início, meio e fim, onde o ritual de encerramento é tão importante quanto o ritual de acolhimento. Respeitar essa evolução é de suma importância para que o vínculo de confiança construído não seja rompido com uma separação brusca, repetindo assim, a negligência com que geralmente essas crianças são tratadas pela família e sociedade.
Consideramos que os pais, possivelmente, não foram tratados com atenção e por isso, não possuem tal referência no cuidado com os filhos. Seus traumas, que tendem a se repetir a cada geração, são os que os levam a buscar suporte legal e emocional no SOS, e não o cuidado inicial com as necessidades da criança. Esta, geralmente, não é considerada como sujeito em seus próprios direitos, embora vivencie e sofra direta ou indiretamente a violência intrafamiliar. Assim, muitas vezes, o ReCriando é visto inicialmente pela família apenas como um lugar de recreação. A experiência de intensificar o trabalho com os pais resultou numa diminuição significativa da evasão e, conseqüentemente, evitou novas rupturas em suas vidas. Estes pais, que não se viam como sujeito de suas próprias histórias e, portanto, não podiam ter esse olhar para a criança, na medida em que se sentiram acolhidos, atendidos e chamados a participar do trabalho, desenvolveram outros olhares e modelos para o cuidado com os filhos.

                Caso ilustrativo: T., 6 anos, chegou ao ReCriando trazida por sua irmã de 18, que buscava informações sobre cursos profissionalizantes oferecidos pela instituição. Na entrevista inicial acabou por revelar que T. fora abusada sexualmente por um tio, há 6 meses. Encaminhadas para o ReCriando, T. compareceu a dois atendimentos. Segundo a anamnese feita com essa irmã, o assunto do abuso nunca tinha sido conversado na família ou fora dela. No entanto, no segundo encontro, a menina revelou seu trauma e toda sua angústia. Entendemos que o acolhimento cuidadoso dispensado a ela e sua carência em ser ouvida, facilitaram essa revelação logo no início. Ao final desse encontro, T. parecia aliviada e disse que gostaria de voltar. Seria um conteúdo a ser trabalhado com grandes possibilidades de ser elaborado e re-significado, inclusive junto à família. Mas, não mais apareceu e soubemos por sua irmã, que ela havia sido encaminhada a outro programa da rede.
Com esse exemplo, refletimos sobre o cuidado na construção e manutenção dos vínculos no trabalho com as crianças e suas famílias. Interrupções e transferências acontecem quando a criança já rompeu a barreira do silêncio, momento fundamental do trabalho, onde se inicia o processo de reintegração, resgate da auto-estima e re-significação de suas experiências.
Quando desconsideramos o tempo e ritmo da criança e descuidamos dos vínculos em desenvolvimento, o ciclo de violência se repete com a falta de compromisso que se estabelece com a mesma e, conseqüentemente, o trabalho, que busca tornar a criança sujeito de sua própria história, se perde e perde seu sentido.
Diante dessa inquietação, convidamos outras instituições da rede a refletir sobre a importância do respeito aos vínculos que estabelecemos, de modo que nossa assistência à criança e à família seja integral e comprometida com nossos ideais, oferecendo assim, um novo modelo de relação a partir de nossa própria conduta.

Maria Isabel G. Penteado
Coordenadora do Projeto ReCriando


LIVROS

A Tristeza de Vicó

Mattos, Thera e Zambotti, Daniela, A Tristeza de Vicó, Campinas, SP: Editora Gracioli, 2005, ilustrado pelas crianças do Projeto ReCriando.
A edição do livro contou com o patrocínio de PH Institute.

Cenas Repetitivas de Violência Doméstica

Braghini, Lucélia
Cenas Repetitivas de Violência Doméstica: um impasse entre Eros e Tanatos” – Campinas, SP: Editora Unicamp; São Paulo: Imprensa Oficial, 2000.

Psicóloga do programa Atenção Essencial à Mulher, do SOSAMF